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Lancheira

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 por Érica Alcântara 19/07/2021   Eu nunca gostei de banana na lancheira. Lembro de chegar a hora da merenda em que abria a lancheira como se fosse uma caixa preta, esperando cuidadosamente que o cheiro não escapasse. Mas o cheiro sempre escapava. Você não pode conter o ar denunciando para toda a turma o que você tem para comer... argh... E a fruta sempre me parecia amarelecida demais e esmigalhada de tanto se debater entre o suco e outro item qualquer. Tenho certeza, o que mais me incomodava era o cheiro. A banana parecia estar lá dentro desde a era dos dinossauros, pisoteada por todo tipo de tiranos e rexs. E comer aquilo era como comer o que havia sobrado e ninguém queria, nem eu. Levei anos para fazer as pazes com a banana!! Eu sonhava com aqueles pãezinhos de leite, as bisnaguinhas “seven boys”! Aquilo para mim era o paraíso das guloseimas. Minha mãe sempre preparava sanduíches com estas bisnaguinhas quando a família inteira viajava do Espírito Santo para Mi...

Memórias e despedida

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por Érica Alcântara Há anos decidi que não veria mais os mortos. A primeira vez foi em 2004, quando em Ouro Preto, soube do falecimento de Ivan Marquetti. Auto-Retrato, 1963, Ivan Marquetti    Foto de autoria desconhecida Ivan era artista plástico, daqueles que pintavam o mundo à sua própria maneira e que, pouco tempo antes de morrer, decidiu libertar a própria filha dos muros fechados de um manicômio. E foi aí que nós nos conhecemos, um amigo em comum me recomendou para o trabalho de acompanhante terapêutica. Confesso que não sabia absolutamente nada sobre esquizofrenia e até hoje tenho dificuldade de pautar como esta experiência me amadureceu. Por aproximadamente um ano Emiliana me ensinou a controlar minhas emoções para ser, quando a realidade desmorona, um porto seguro na escuridão. Depois que sua filha foi completamente reintegrada na sociedade, Ivan Marquetti morreu. Seu corpo foi velado na Fundação de Arte de Ouro Preto e Emiliana estava na porta quando cheguei....

Das vidas vividas

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Estamos nos afogando em nós mesmos, mergulhados por obrigação em nossos próprios corpos ... Até então éramos todos o mundo de fora, expandíamos para além das fronteiras do eu experimentando o outro e, a partir do outro, estabelecíamos padrões de referência: os limites pensáveis e intuídos de até onde queremos ir, o que aceitamos como certo e errado.   Estamos agora encarcerados, o medo do outro lado da rua, do último abraço.   O medo do outro só por ser outro e por não estar desde sempre sob nosso controle. Nós que temos perdido os limites das palavras e distribuído mentiras e maledicências como doces em festas de São Cosme e Damião. Mas eu nunca fui a estas festas e meus bolsos nunca se encheram de doces...   Me lembro da queima de Judas, em Ouro Preto, uma réplica do apóstolo é queimada em praça pública e o evento é tido como infantil. Os adultos jogam balas e chocolates para o alto e as crianças se jogam no chão, empurrando violentamente umas contra as ou...

Fragmentos

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Então é isso, a gente faz o que pode e depois tenta catar os pedaços da'gente que ficam jogados por aí. A cabeça dói de tanto pensar... Como foi que me espalhei aqui? Cacos de vidro sobre o taco velho e desbotado... A gente se acha nos pequenos feichos de luz e depois se perde.... Ah como a gente se perde! Às vezes por pura teimosia a gente se perde só pra se encontrar e se esconder de novo e de novo... Nos ocupando qse que irremediavelmente com nossos próprios umbigos... Buraco negro do mundo. Se eu caminhar sobre brasas serei mais feliz? Por uma semana talvez, que o fogo que consome a gente não tem nome, nem lasca madeira seca ao vento Conhecimento A felicidade é instante fugidio, escapa, é isso. Deixa memórias gravadas em nossa gene e assim compartilhamos algo sem nome, sem corpo, instantes entre milhares de eus que nos repartimos. Érica Alcântara 15/01/2020

Adeus a Rosa

Histórias de Elo - À Deus Hoje, quarta-feira, dia 13 de novembro, por volta das 10h tocou o telefone. Olhei no identificador de chamadas – Junim – meu irmão mais novo. – Oi amor, como você está?, perguntei. - Não muito bem. Eu sei que nós não tivemos convivência, mas eu precisava te avisar ... a vó morreu. É estranho eu sei, desculpa te falar assim, desse jeito. Papai? Ele está em Pirambu... O resto da nossa conversa não me lembro bem. Fui para o banheiro aos prantos, liguei pro meu pai e entre meu colo distante e palavras de afeto, o convidei para vir ficar um tempo comigo. Ele me contou da saudade que sente, e de uma tristeza que antes dela partir já havia tomado seu corpo. Depois, com a voz tremula, disse: - Não se preocupe, não vou ficar sozinho. Também não vou procurar os cacos de mim, dos amigos de mais de 45 anos que acompanharam a minha vida. Hoje vou procurar o povo simples daqui, o povo da terra que mais se assemelha com a comunidade quilombola em que eu nasci, só para m...

Corsário

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Eu já vou, para casa onde mora minha paz Eu que sou tudo que abraço meu tempo com a leveza que me foi dada depois de tanta tempestade sou mais corsário... porto do próprio mar que navego... Érica Alcântara 18/11/2016

Perdi o voo

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Alô, mãe, eu perdi o voo.  O choro de menina explode na voz embargada da mulher que me torno... Transbordo.  A brabeza comigo mesma e uma vontade absurda de pedir abrigo... Como quem prevê que meu coração vai ficar dias e dias de castigo...  A hora do encontro adiado.  O cheiro e o abraço que não se enlaçam. O colo mútuo que não alcançamos.  E essa sensação de que a distância aumenta... gigante como eco na montanha.  É a expectativa que chicoteia... .  Ela diz: "Não fique triste flor nossos caminhos são traçados por Deus. Vou ficar triste, mas não vai faltar oportunidade. Te amamos" . .  Aqui em São Paulo, saí do aeroporto e fui ajudar a divulgar o evento das mulheres empreendedoras de Arujá. Depois fui ao Campeonato de Judô em Santa Isabel. Não escondi meu coração partido no trabalho, muito pelo contrário, fui praticar o bem pra me sentir bem... .  Em Minas, mamãe saiu de casa e foi rezar na igreja. É na ação que encontramos co...