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Mostrando postagens de novembro 21, 2022

Velório

Entrou no velório ainda tonto, com os olhos cheios de água, o mesmo terno preto cheirando a flores e o lenço sempre a mão, tapando a boca que cheirava a pinga. Todas as vezes que João bebia, acabava velando alguém, chorando a morte dos outros, chorando a partida alheia como se fosse a sua.        - Você é parente? -            Não, eu só vim dizer... Até logo. -            Você sempre fala com os mortos? -            Quem é você? -            Eurico Breve, seu criado. -            Desculpe, eu não faço criado. -            O senhor não entendeu, eu só quero lhe prestar pêsames, vejo que estás muito triste. Já sei, era o amor de sua vida. -            A vida? -            Entendo, o senhor quer ficar sozinho. De todo modo, lamento, eu era muito amigo de senhora sua mãe. Tenha fé, irmão eu já vou. -            De que família o senhor está falando? João que não amava ninguém olhou para o rosto pálido, as duras rugas que lhe vestiam e todas aquelas flores cheirando a capim, sorriu e saiu.