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Mulher da terra

A estrada de terra, dura, difícil, em ondas. No Cafundó de Santa Isabel encontrei um tesouro. Uma Mulher da terra, com suas galochas pretas, caminha passo firme, empurrando o carrinho de mão.
O cachorro, desprovido de raça e de latas, também é preto. Se esconde embaixo do carrinho, logo que o carro pára.
Benedita Camargo, 68, não sabe aonde está a rua que quero, desconhece a Dona Maria que procuro. Fala sempre sorrindo, mesmo que seja sorriso de vento. É linda. É forte. Mulher.
Digo: "Já lhe disseram como vc é bonita?"
Cora a face respondendo: "Sou nada".
"É tudo, tá linda com este chapéu da cor da terra da estrada. Posso fazer um retrato?"
Deixou, mas não sorriu. Olhou firme para o horizonte, nem se mexeu.
Tímida, olha a fotografia meio desconfiada.
Aceitou o abraço de gratidão, alertando: "Tô suja, empoeirada"
"Quem não está nesse calor de meu Deus?", disse.
Ela me disse para seguir em frente, segui. #historiasqueinspiram
#ericaalcantara#escrit…
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Missa de Páscoa

De longe, olho da calçada a Missa de Páscoa da Matriz do Pilar, em Ouro Preto - MG.
Lembro da menina que fui, sentada no banco que gemia ao peso do traseiro, olhando para a abundância de arte. Confesso, que muitas vezes sequer ouvi a voz do pároco, firmava os olhos nos anjos e pensava: "se eu fechar os olhos só um cadim e me concentrar bem... nã nani nãnão, tem que ficar de olhos semi abertos, mas relaxa a vista, relaxa mais... ele vai mexer..."  A minha infância inteira, olhei para os tetos das igrejas barrocas, na esperança de que com o poder da mente iria mover as asas dos anjos... eles sobrevoariam toda a gente e se sentariam ao meu lado, cercando-me com suas asas cheias de vento. E num abraço sagrado eu voaria com eles, acima das montanhas, sobre elas. Magia de Minas, encanto das artes. Aí meu coração ❤️, tão mineiro  mais solto que a brisa do incenso da missa de Páscoa.
#historiasqueinspiram #ouropreto  #escritora #poetisa #ericaalcantara

Laços de Família

Mamãe Luzia e Vovô Wilmar Pedro de Alcântara, meu padrinho.

Quando meu avô morreu havia muito pouca idade no meu calendário de vida, 3 ou 4 no máximo. Partiu como quem reparte a história de toda a família.
Nunca mais a meninada se reuniu no quintal para chupar cana, ou se matou de rir com o reco-reco do vovô (uma brincadeira em que ele usava nossas costelas como cordas de violão e eu sentia muita dor, mas ainda assim eu ria). Lembro de suas mãos duras, com dedos de madeira bruta, rústica e áspera. Era pedreiro e marceneiro, nascido no Salto, interior de Ouro Preto/MG.
No dia que meu avô morreu, horas antes o sol castigava. Peão come cedo, nem era 12h ele vinha. Entrava na casa como quem carregava o remanso, de uma mansidão típica do homem do campo. Em todas as minhas lembranças, é ele quem traz o sol. Aliás, a casa era em tons de amarelo, o fogão a lenha tilintava as lascas de eucalipto em brasa quando ele pedia arroz. O vô amava comer arroz, desse branquim, que garra só um cadim no …

Palavra e Gesto

Um jovem escritor é contratado para contar a vida de um grande Empresário. No meio do trabalho, enquanto recolhia os depoimentos, o Empreendedor sofre um grave acidente perdendo o movimento das pernas e, temporariamente, dos braços.

Deprimido o Empresário suplica à sua esposa: “Me mate. Quero morrer”. Semanas de tratamento e o homem é liberado para sair do hospital.
No caminho para casa resolvem entrar em uma capela construída pela própria família. Externamente feita de pedras escuras e compactadas, por dentro com paredes grossas e brancas, o local frio e sóbrio parece apoiar-se na imagem ao centro - um crucifixo esculpido em madeira bruta e nobre.

Minutos depois saíram, já no carro, enquanto a cadeira de rodas subia o elevador, um homem estranho se aproxima, pede licença e diz: “AqueEle que está ali (aponta para a cruz) sofreu muito mais por você. Você é filho dEle e vai sobreviver”, o estranho surgiu do nada e ao nada retornou, desapareceu enquanto o Empresário chorava como um bebê …

Te convido

Palavras ferem tanto quanto (ou mais) que flechas lançadas ao vento.

Já faz algum tempo que tenho vontade de escrever sobre relacionamentos, mas eu não queria (e ainda não quero) falar somente de romance. Afinal, se analisarmos bem, nossa vida é pautada por uma série de relacionamentos, alguns mais intensos que outros, mas ainda assim, são relacionamentos. Então se me perguntassem no que se baseiam todas as relações eu diria: em palavras.

Você pode passar anos ao lado de alguém, mas duas palavras podem mudar tudo. Como espelho quebrado que nunca mais reflete a mesma imagem, palavras são capazes de estilhaçar o reflexo dos outros, e de nós mesmos. E para continuar a conviver é necessário reconstruir tudo, refazer as bases, recalcular a massa e subir tijolo por tijolo uma nova experiência. Para mim, se não reconstruir tudo, absolutamente tudo, algum caco do passado sempre vai voltar a nos cortar a pele e expor antigas feridas. 

Então “te convido” a repensar, a olhar de novo os outros a su…

Partida e chegada

O tempo de partida é o tempo de chegada
Em cada perda um ganho
Pois o vento que derruba a casa, varre o chão para nova estrutura...
Nascemos dotados de movimento, para tanto mudamos, ainda que visualmente parados, trocamos de ideia, de ar, de emoção
A mudança está na natureza, humana?
Em tudo, até a morte se transforma em rico esterco onde nasce o infinito. Érica Alcântara

Flor de tempo

Horas falidas Caíram no vão da vida O ar me entorpece As pessoas me trazem cansaço A palavra perdeu-se Solitária Consumiu o verbo e pecou com imagens...