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A barata e eu

 

Quanto mais perto da metade de toda a vida, mais longe de todas as certezas que, sem muitos porquês, fui deixando pelo caminho. Tentando ocupar o vazio indizível de mim fui, ao longo da vida, me preenchendo de tantos outros que mais tarde se tornaram ecos. De mim?
Caminhamos sobre nossos pais para não pisarmos uns nos outros? Mentira. No momento em que nos tornamos pó nos dissipamos sozinhos.

 

Ontem à noite percebi que não tenho mais medo de barata! Deitada em minha cama sinto o som do voo rasante sobre meus ouvidos. Atraída pelo abajur, logo acima da minha cabeça, ela veio.
A luz e ela, como qualquer outro inseto, comumente atraída pela lâmpada branca que irrompe a escuridão da casa inteira.

 

Ela em si mesma era esverdeada. Foi então que me dei conta que não era a barata que me agoniava, mas toda a sujeira que em mim ela sempre representou.
Mas o corpo mutante pede outro conceito e me fez pensar na barata do mato cercada apenas de folhas verdes e terra, exatamente as cores que predominam sobre suas asas repousas na parede branca... e por pensar tudo isso hesitei.

 

Devo mesmo matá-la? Não creio, mas creio! Levanto-me insone para encontrar solução sem morte. Não há. Se a vejo, pressinto e sua presença invade a doçura de meu silêncio/solidão em ecos.
Vou até o armário, escolho veneno ao invés dos chinelos. Pensar em suas tripas expostas manchando a parede me causava mais repulsa que o isolamento temporário para a sala de discos. Afasto, sem movimentos bruscos, os travesseiros abaixo da luz até soltar o “jatosida” chiiiii, pá! Caiu.

 

O veneno tem um cheiro doce, eu surpresa, ela letárgica se contorce no piso atrás da cama. Eu me viro para não ver a morte chegar, sou qualquer coisa que perde o medo das coisas que existem para além das coisas que elas representam.
Mais tarde, recolho seu corpo estátua jogando-o no quintal. Lanço-o como quem tenta uma prece desejando que na decomposição de sua existência o veneno doce abdique da própria existência sobre a terra, exatamente onde em pó ou dó, tudo se dissipa um dia.

 

Érica Alcântara

07/03/2022

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