Isabelense é inocentado após 17 meses de prisão



“A esperança de voltar para minha família me manteve vivo”, disse David João Nunes Inácio

por Érica Alcântara

David João Nunes Inácio fez questão de começar a sua entrevista na quarta-feira, 23/10, dizendo: “Eu sou isabelense, nasci aqui, trabalhava aqui e não quero deixar esta cidade”.
Em abril de 2018 ele foi preso, acusado de participar de um crime que, em dezembro de 2015, ceifou a vida da professora Maria Helena de Oliveira Godoi, assassinada na cidade de Redenção/Pará. Após 541 dias preso, o Juiz de Direito do Pará, em auxílio à Vara Criminal de Redenção, Dr. José Torquato Araújo de Alencar absolveu David de todas as acusações em face da falta de provas.
“Não guardo revolta, só a vontade de voltar para minha vida”, diz.
O Processo
No dia 24/04/2018, David foi preso quando saía do trabalho na Secretaria de Serviços Municipais. Ele ficou preso alguns meses em São Paulo, depois foi transferido para o Pará onde ficou sete meses sem ver a esposa, Luciene Cristina dos Santos. “A gente só namorava quando tudo aconteceu, mas ela nunca me abandonou. Nunca duvidou da minha inocência e me deu forças para acreditar”, descreve David.
Ainda é um mistério como David foi envolvido nas acusações deste crime, nas considerações finais do Juiz ele cita que duas pessoas citaram a existência de um comparsa dos criminosos que era conhecido como Anjo do Mal, mas nenhuma reconheceu David como sendo o mesmo indivíduo. E, apesar de não existir nenhuma outra prova contra o isabelense, ele permaneceu todo esse tempo enclausurado com base apenas nas alegações destas pessoas.
O condenado Lourival, ao confessar a prática do crime disse que o Anjo Mal, também se chama David, mas é louro, tem aproximadamente 1,65 metros de altura e possui uma tatuagem de coração na mão. A descrição não confere com o David de Santa Isabel, que não possui tatuagem na mão, não é louro e tem 1,90.
A defesa produziu provas de que na ocasião do crime David de Santa Isabel sequer estava no Pará, mas sim no Estado de São Paulo.
Diante das evidências, Dr. José Torquato julgou improcedente a denúncia e absolveu David no dia 17/10/2019.
A Liberdade
“Meu primo foi me buscar de carro, a paisagem passando rápido pela janela me assustou. Eu não conseguia acreditar, porque uma parte da minha alma ainda estava presa. A gente demora acreditar que a liberdade é uma coisa real”, diz David.
Algumas lembranças não passam, as primeiras noites no presídio em que foi obrigado a dormir no banheiro com outros dois sujeitos, até o ciclo de prisioneiros abrir um espaço distante da latrina. Meses depois a transferência para outro Estado, que afastou David da família: a mãe que é viúva, a esposa que não o abandou e os quatro filhos que sofreram com as acusações que recaíam sobre o pai. “Nessa época fiquei deprimido, fui colocado num presídio em que os presos compram seu espaço na cela, por R$200,00 comprei um canto no chão e passei dias sem me levantar de lá, ao contrário daqueles que dormiam no meio do caminho e eram obrigados a se levantar para não atrapalhar a passagem”, recorda.
David passou por rebeliões, sua vida foi salva em uma delas por outros presos que, apesar de serem confessos culpados por crimes impensáveis, o defenderam quando sua cela foi invadida e um dos companheiros de cárcere foi perfurado com uma centena de facadas ao seu lado.
Cercado pelo sistema por tanto tempo, David hoje não acredita que a prisão recupera uma pessoa. “É a família, é ela quem mantém a gente no eixo quando tudo parece errado, quando você não tem mais nada. E os amigos, meu Deus como sou grato, muitos me mandaram cartas e me fizeram sentir que faço falta, que fiz a diferença, que ainda sou alguém por quem se vale lutar, acreditar. São as pessoas que amamos que nos mantém vivos”, diz.
Culpados
Os criminosos que mataram a professora, Lourival Gomes dos Santos, Cleudiane Moura dos Santos e Maurício de Oliveira Pereira foram condenados a 32 anos de prisão.


Vídeo da entrevista no Youtube: https://youtu.be/ey-jHrJeA28

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