Um passo de cada vez

André, eu, Kátia e filha, Ana
Caminhei 3,9km esta noite. Eu que vivo na escrivaninha entre uma reportagem e uma poesia. Fui.
Horário marcado: 19h30. Saí do trabalho mais cedo! Workaholic saindo mais cedo? Não. Não dá, num vô.
Me convenci: escreva uma história, seja parte dela, e a cada três meses conte como caminhar transforma uma vida.

Certo! Larguei o computador. Fui em casa procurar malha e um tênis, aquele esquecido no fundo da sapateira.
No auge dos 80 a malha não combina, o casaco pouco se ajusta e a cabeça começa a pensar: Está frio hoje, muito frio pra caminhar.
André e Ana dão o suporte: "está frio, mas não choveu. Vem!".

Passei no mercado, peguei uma fruta e lavei, logo depois da mulher de anel manchado de listras brancas e avermelhadas que sorrindo me disse: "olha a sujeira que a gente acumula no caminho", mostrou as mãos sob a água escorrendo uma espécie de lama das macaxeiras.

Sorrio enquanto esfrego minhas uvas na água corrente e penso no meu próprio peso, como essas sujeiras que a gente acumula no caminho.

Contei que ia "correr" para cinco amigos diferentes: tô indo pro CSI. Claro que teve aquele que pensou ser maratona de série de TV! Ou brincou que só podia ser isso.
Da avenida agitada à rua do interior, os Corredores de Santa Isabel se encontram ali na Rua dos Andradas, número 75. Moram na casa de tijolinhos o casal, Ana e André, com a filha mais nova e recebem o grupo que aos poucos se multiplica.

Quem é novato recebe companhia, até formar parceria. Vai se enturmando devagarim. Eu cheguei entre a persona jornalista e a tímida escritora, dançando entre ego e alter ego, ou qualquer coisa assim.

Aqueles que se aproximam, da novata que sou, começam contando os exemplos de vida que se reúnem ali, tem quem deixou 20 ou 30 quilos no caminhar, mas também têm aqueles que passo a passo constroem novas relações com o outro e consigo mesmo.

Deram-me a grata satisfação de ter a Kátia como madrinha e hoje ela não correu. Trotou alguns trechos comigo e apertou o passo o quanto eu podia.
Kátia tem 70 medalhas de competições que soma nestes últimos tempos.
Falamos de vida. O caminho é de descoberta. Quem é o outro que acompanha e, mesmo sem conhecer-me, deixa a velocidade de lado para respeitar meus limites?

Kátia é enfermeira que trabalha dia sim, dia não, em São Paulo, em um renomado hospital particular. Veio para Santa Isabel há mais de 10 anos, por amor, sim porque o coração dela  parece que sempre vence as distâncias.

A filha de Kátia passa por nós, com seu cabelo cacheado, escuta nos fones de ouvido aquele rock, "aquele", expressão que só Kátia entendeu, mas que deve ser ótimo porque o desejo de correr volta e ela nos ultrapassa sem perder o fôlego. Foco e força.
O medo do novo, passou.
O tempo todo dizia a mim mesma, o mais difícil será só o primeiro passo.
Érica Alcântara
07/08/2018

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Preta sim, mulata jamais

Abandonado na UPA