A espera da felicidade

De tanto esperar pela felicidade, Jorge acredita que está chegando seu momento. Foi viajar com a filha, fez trilha, andou de moto e usou coletes de grupos de apoio.

Antes de partir Jorge não sabia se já foi feliz. Quando lhe pediam para citar três momentos de pura alegria, lembra da gemada de sua avó, feita com uma dose extra de cachaça que fazia a criançada dormir bem melhor, ou mais rápido, ele não tem certeza!
Depois tem o nascimento da filha, Juliana, que lhe causa estranheza por parecer tanto com ele mesmo. "Mas tinha que puxar logo os defeitos?", questiona sempre em tom de zombaria.

Um terceiro exemplo não sabia ou nem lembrava. Os dois primeiros exemplos nasceram quase de cesária, foi necessária persuasão a fórceps.

Mas a felicidade, Jorge espera. Agora que vai se aposentar acredita que vai alcançar assim, tão logo tire o terno e a gravata.
Deixou pra depois, que acabasse a faculdade, que casasse, que tivesse filhos, que Juliana crescesse e o tempo passou. "Ele voa mesmo", diz Jorge apagando as velas de seu bolo de padaria. Por cima do glacê duas velas de cinco e oito. "Falta pouco", disse para si mesmo. Durante a viagem com a filha duas coisas passaram pela cabeça de Jorge: "Devia ter aprendido a receita da gemada e abraçado mais Juliana".
Érica Alcântara
19/08/2018

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