“A música venceu...”

E de repente, do silêncio vazio que ocupava a sala, eu com o corpo cansado, reencostei as costas na cadeira e de olhos fechados senti quando pela Sala São Paulo se dissipou o som da música de Johann Sebastian Bach. A música adentrou em mim pelos poros e fez das fibras de meu corpo seu próprio pentagrama. E todas as tormentas do dia a dia se dissiparam como poeira em meio a ventania, despertando o que há de mais sublime, acima de todas as palavras, todos os conflitos, como criança que adormece em ventre materno.
Afora de mim, o maestro João Carlos Martins ergue a baqueta direcionando as notas para onde vive a harmonia. Em sua presença todos se sentem em casa e o clássico que antes dormia no passado, como se pertencesse somente aos homens de cabelos raros/claros, faz-se presente com a vivacidade de um adolescente, a força de um rito e o pulsar das paixões mais ardentes.
E com suas mãos, que suportaram todos os desafios, é mais um menino, reinventando a própria estória em cada nota. Violinos, violoncelos, trompetes, oboés e tantos outros instrumentos o seguem. Na platéia todas as idades, toda a gente que é um corpo vivo refletindo o som da orquestra.
Depois da apresentação, já no salão, ele recebe seus convidados. Uma multidão o cerca de sorrisos, até que um mulato corpulento lhe pede uma audiência e reverbera pelo salão alguns versos, acordando toda a gente daquele estado de contemplação e graça.
Eu lhe agradeci por me levar de volta para casa. Não sei ao certo se ele compreendeu o que quis dizer, mas tenho para mim que sim. A boa música nos leva aos recônditos de nós mesmos, e é como reencontrar consigo mesmo depois de uma centena de dias distante, muito longe de casa.
Voltei para Igaratá desejando que todas as pessoas possam sentir o mesmo.
Compreendi de fora para dentro quão nobre é a missão da Fundação Bachiana criada pelo Maestro que, desde 2006, promove a inclusão social por meio da formação de uma consciência musical brasileira.
E para aqueles que acreditam que heróis são homens com super poderes, o artista, que venceu pela música uma estória de tragédia pessoal e traumatismo físico, apresenta ao público sua maior lição, mudar a si mesmo e a sociedade pela cultura é algo que só homens de verdade podem fazer.
Aplaudo de pé e grito BRAVO!!
Coluna Opinião, edição 878, Jornal O Ouvidor

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