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O fim de um mito

Lá pelas bandas do Bonsucesso, havia a tradição de se tirar do solo sagrado a cura dos males do corpo e da mente. Há três anos testemunhei pessoas ansiosas por tocar o solo, depois lança-lo para longe para sarar suas dores.
Este ano, para meu espanto... testemunhei com tristeza o mito desmoronando.
Pouco espaço resta para revirar o solo em volta da capela toda pintada de azul.
A primeira cena, a mais bizarra, era a da chegada. Sobre a terra sagrada, uma fila de motos e carros estacionados, brinquedos infláveis, que faziam o som das crianças se divertindo ensurdecer a prece dos que oravam na capela, e para completar banheiros químicos.
Mais a frente, encostados na capela, um casal de namorados se esfregavam um no outro e uma menina com necessidades especiais comia seu churrasquinho sentada na porta da frente do templo.
Ao lado da cruz via-se de cima barracas emprovisadas com lonas, salpicadas em volta com a sujeira da festança, e um cheiro de bebida destilada entorpecia o ar. Eu andei por entre as gentes, e um sentimento de perda ia tomando conta de mim.
Dos que reviravam o solo, já capinado pelo poder público (muito atuante nestas atividades) alguns sequer sabiam o que fazer com a terra, outros utilizavam sacolas plásticas para sequer tocar a terra, suja? Para onde foi o sagrado? Quando é que se declara a morte de uma tradição? O fim de um mito?
Em três anos tanta coisa mudou. Que será dos próximos três anos?
Claro que não posso dizer como as coisas devem ser, nem nunca fui apegada as tradições, muito menos as religiosas. Mas a fé que antes havia me comovia mais que a festa, só pela festa.

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