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A identidade dos invisíveis


No domingo, 16/05, chegaram a Igaratá três andarilhos, Isabel Cristina dos Santos, 48 anos, Osmar Damião Reis, 40 anos, e Paulo Fernando Costa Souza, 60 anos. Eles ficaram cinco dias acampados na entrada da cidade, na saída para a Rodovia Joaquim Simão, pouco antes da entrada do bairro Jardim Rosa Helena. No local em que se alojaram, improvisaram um fogão à lenha para preparar alimentos e, lá mesmo, no entorno do acampamento, faziam suas necessidades.
Junto deles, uma carroça pequena, dois cães de guarda e trapos e panelas que conseguem carregar. Vinham de Minas Gerais, percorreram centenas de quilômetros a pé, em busca, segundo Isabel, de trabalho. “A gente queria trabalhar na colheita de café, mas chegamos tarde demais”, diz.
Contam que chegaram à cidade trazidos por uma das equipes de atendimento da Rodovia Dom Pedro, “eles não queriam que acampássemos a beira da estrada”, diz Osmar.
Na Secretaria de Assistência Social de Igaratá conseguiram uma cesta básica e foram encaminhados à Casa de Assis. Dizem que estão tomando banho e fazendo refeições por lá, mas não se hospedaram, apesar do frio imenso da noite, porque a casa não recebe mulheres. “Eu não vou deixar minha nega sozinha no relento”, conta Osmar, que interrompe esporadicamente seu discurso para beber cachaça, às 11h da manhã.
Isabel é exemplo de gentileza, e distribui “bom dia” para todo mundo, dá exemplo de boa educação e sempre se refere com carinho e protege a reportagem dos ataques de seu cão de guarda.
Eles planejavam seguir para São Paulo, mas Osmar dizia que não tinham intenção de partir, “o tempo está ruim e não escolhemos o caminho, além disso, o véio (como chama Paulo) não aguenta andar dois quilômetros sem parar”, conta. Ele revela que ambos fizeram escolhas erradas, que tinham suas famílias, casas, bens e profissão, mas que a droga e a bebida lhes tomou tudo. “Fui mexer com tráfico e a vida desmoronou”, diz.
Já na noite de quinta-feira, após a entrevista, os três não se encontravam mais no acampamento. Alguns vestígios sobraram e a frase de Isabel na despedida da equipe de reportagem ainda ecoa, como num lamento: “depois que a gente erra e perde tudo, a sociedade não nos aceita de volta”.

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