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João Ninguém

Morreu estalado no chão com a boca enrugada e contorcida de dor. - Quem é ele? - Um João Ninguém, saiu sem documento, sem lenço e sem dinheiro. - Se não tem dinheiro era “mindigo”. Documento é comum não ter. João morreu e ninguém chorou. Ninguém quis o corpo frio com cara de dor. Érica Alcântara Mar./2016  

Petisbom

- Não acredito!! Levanta Fran, surpresa ao reencontrar o primo. Moram a uma quadra de distância, mas não se viam há um ano. Se cumprimentam e se abraçam, do mesmo jeito que no interior em que o mundo sempre parece pequeno e rever rostos fraternos é tão comum como o frio nas noites de inverno. Ele veste avental e segue direto para a chapa, onde borbulha nas cumbucas a feijoada do dia servida no Petisbom, localizada no coração do bairro Bela Vista, na capital paulista. Chegamos ao local por indicação do porteiro do prédio onde estudamos jornalismo literário. Ao ser questionado sobre onde encontraríamos comida boa e barata, sugeriu o bar e lanchonete à frente do posto. Indicou com timidez clara, deixando um ritmo desconcertante na voz com molejo nordestino. “Expérimenta, se não gostá, num comi”, resumiu. De fato, é outro universo. De uma esquina para a outra, mais parece que voltamos no tempo. Ao lado da porta, o bicheiro recebe apostadores, é apertado e barulhento. Há quatro ...

Construção

Somos todos deuses, criamos e destruímos mundos. Reinventamos a própria história e convivemos com tantos que já fomos... com a certeza de que muitos ainda seremos. Ser – é brincar de construtor. É planejar mundos e executar sonhos. A vida, minha cara, é curvilínea. Às vezes, é preciso plantar a mesma grama do vizinho, só para perceber que a própria plantação é a que gera os melhores frutos. Érica Alcântara Dez./2013

No Olhar de Olga

“É fácil viver a vida dos homens comuns. Difícil, minha filha, é viver no submundo”, diz a moradora de rua Olga, enquanto é despejada de uma casa que ocupou por um tempo com outros quatro sem teto. Enquanto recolhe o shampoo do banheiro ela, que já foi professora de português e línguas, olha para as policiais femininas e questiona: “Como é ser guarda? Anjo da guarda? Vocês também guardam por mim?”. Recolhe o cobertor delicadamente dobrado sobre a cama de papelão, a cama fria não é tão gelada quanto o olhar atento dos donos do imóvel, que antes da ocupação vivia abandonado. Seu companheiro de rua recolhe a cebolinha que plantou num vasinho preto na janela. Olga tem vontade de chorar, mas não pode. “Na rua a gente é forte porque não tem opção de ser fraco”. As policiais estão paralisadas, cada uma na porta de um cômodo, Olga olha para elas e com perfeita afinação canta: Os anjos de onde vem sua vida bem-vinda ... os livros não são sinceros Quem tem Deus como império No mundo...

A gente carrega

A gente carrega o que é do outro e nem sente, vai cumulando desculpas para não assumir a própria responsabilidade sobre o que sente. A gente carrega a dor do mundo, mas o mundo é tão grande e somos todos tão pequeninos. Feitos sob medida para as coisas que realmente nos pertence. A gente carrega nos ombros as escolhas: viver o que se quer ou o que o outro deseja? E passa tempo demais sendo o que pensa que os outros desejam... e quando se vê, já não se sabe ser só e nem de quem era o desejo a qual se comprometia. Érica Alcântara Mar/2003

Anotação

 Toda memória é uma reconstrução.

Despertador