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Dia das mães

Tenho sentido sua falta do cheiro melado de seu suor de sua crista de sabichona sempre a apontar, feito sargento: "vem por aqui!" sempre delicada aos outros e dura feito aço aos de dentro fundação tem de ser firme, é de se compreender! restaura até os anjos mas vive encrencada com a tecnologia Ai que saudades d'ocê Dia das Mães chega e a distância parece crescer Minas parece mais o Japão Você não vem, e eu? sempre trabalhando, trabalhando... Érica Alcântara maio/2010

Impulso

Dentro de mim há cavalos correndo pelo cerrado, a terra treme, o vento no rosto, o ar em todo o corpo, ar por entre ossos, ar por entre curvas dos rios que moram em mim. Dentro de mim há mais vida que fora, dentro de mim há mais mistérios que eu posso contar, estou entre aquela que se perde e se acha no mesmo instante, estou entre a luz e a escuridão, entre portas cerradas e janelas escancaradas. O dia em mim é sempre ensolarado, e a chuva não deixa o dia triste, a chuva em mim é alimento. Érica Alcântara abril/2010

Carta de nascimento

… e de repente, como uma melodia, minha médica diz: Ana, faremos uma cesariana...Você não vai aguentar mais essas contrações sem ter dilatação. Senti um alívio, estava há 10 horas já tendo as famosas contrações. Ninguém merece aquilo.   Rapidamente fui colocada em uma cadeira de rodas. Passei pelas tias, irmão, amigos em direção ao Bloco Cirúrgico. Não sei quem chorava mais. Certamente eu. Meu bebê estava a caminho mesmo. Que expectativa!   Prontamente me ligaram eletrodos, puxa veia aqui, mede pressão ali, uma picada gelada na coluna e não sentia mais nada. Minha mãe segurava forte a minha mão, enquanto a parentada se revezava no vidro acompanhando o parto.   Minha médica me visou que sentiria naquele momento uma pressão. Fiquei atenta. Senti a tal pressão, confundi com falta de ar e quando eu já ía reclamar, ouvi o 1º choro do meu bebê.   Uma emoção sem medidas, uma grandeza de sentimento. Meu Paulo é saudável e grande. Toda a equipe comentou. Todos ...

Direção

Ontem à noite venceu o medo.  Quando virou a chave do carro pensou nos riscos à frente.  Tremeu, tremeu e tremeu, por dentro e por fora também. Acendeu os faróis, apertou os cintos e chegou ao destino. O destino é o fim? Não. Às vezes, o destino é só o começo. Érica Alcântara Nov. / 2015  

Para Hoje

Tarefa do dia: Encontrar       o Extraordinário ,           no Ordinário !

João Ninguém

Morreu estalado no chão com a boca enrugada e contorcida de dor. - Quem é ele? - Um João Ninguém, saiu sem documento, sem lenço e sem dinheiro. - Se não tem dinheiro era “mindigo”. Documento é comum não ter. João morreu e ninguém chorou. Ninguém quis o corpo frio com cara de dor. Érica Alcântara Mar./2016  

Petisbom

- Não acredito!! Levanta Fran, surpresa ao reencontrar o primo. Moram a uma quadra de distância, mas não se viam há um ano. Se cumprimentam e se abraçam, do mesmo jeito que no interior em que o mundo sempre parece pequeno e rever rostos fraternos é tão comum como o frio nas noites de inverno. Ele veste avental e segue direto para a chapa, onde borbulha nas cumbucas a feijoada do dia servida no Petisbom, localizada no coração do bairro Bela Vista, na capital paulista. Chegamos ao local por indicação do porteiro do prédio onde estudamos jornalismo literário. Ao ser questionado sobre onde encontraríamos comida boa e barata, sugeriu o bar e lanchonete à frente do posto. Indicou com timidez clara, deixando um ritmo desconcertante na voz com molejo nordestino. “Expérimenta, se não gostá, num comi”, resumiu. De fato, é outro universo. De uma esquina para a outra, mais parece que voltamos no tempo. Ao lado da porta, o bicheiro recebe apostadores, é apertado e barulhento. Há quatro ...