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Despertador

A mão do torturador

Atinge o peito ferido Rasga a carne Em dor mimética Atordoado procura abrigo Em todos os olhares de afeto perdido A flecha se lança ao abismo Verde musgo, o sangue da terra O homem que é tudo, ao nada se eleva. Érica Alcântara dez/2003  

No 5º ano

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Em dezembro, de tempos atrás, fui convidada para visitar o 5º ano de uma escola do ensino fundamental no bairro Jd. Eldorado, em Santa Isabel/SP. Entre os diversos alunos sentados à minha frente, uma menina se destacou. Diferente dos demais, que apresentavam desenhos de flores e sóis com sorrisos amarelos, a pequena notável desenhou um enorme dragão vermelho que cuspia farpas. - O que é isso?, questionei. - É um dragão que cospe facas, respondeu a garota, de no máximo 11 anos. - Por que você desenhou isso? - Porque palavras doem mais do que tapas. Ela me fez prometer que iria à sua formatura. Fui, por ela. Quando a menina me viu, sorriu como se visse o próprio sol. Eu, que até então andava sem primavera, abracei-a. - Estou aqui por você.  - Eu vi.

De Mito à Imbrochável

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Em defesa da família, da pátria e de Deus. O mito é realmente especialista em família, afinal casou-se três vezes, possivelmente, para se especializar no assunto. E quem pode criticar? Quando não dá mais, não dá mais! E o que se pode fazer, família continua sendo família apesar dos divórcios. A pátria é realmente a sua casa, onde se pode dizer tudo sem decoro ou vergonha. Afinal, vergonha do quê?   Quando não se gosta de um assunto, coloca-o na caixa dos sigilos seculares, bancados por orçamentos secretos. Porque quando se trata de mito não é preciso ver para crer. Mito é mito e cada qual adere aos próprios heróis quantas características imagináveis incríveis quiser. E sinceramente, não vale a pena brigar, contra a fé não há argumentos. Como o bezerro adorado no monte, o mito segue reluzente no cargo mais alto do poder, banhado de “ouro” e, talvez, de “sangue”, mas só teremos certeza disso em cem anos! E Deus vira ferramenta, um instrumento de agregação de valor a serviço do ...

Sexo com compromisso

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  Por Érica Alcântara   Apenas para evitar cair na vala comum dos erros provocados pelas generalizações, vou usar a palavra “quase”, mas admito que internamente sinto que ela é dispensável na frase a seguir: Quase... sempre que um homem, desprovido de argumentos, quer destruir (ou rebaixar) a imagem de uma mulher ele joga ela em alguma cama (na dele ou de outros). E digo, sem medo de errar, que o problema é antigo, não começou hoje. Explico: Na Bíblia a mulher verdadeiramente boa é a virgem, que é capaz de dar à luz sem ter sentido prazer algum. Mas a mulher que peregrina ao lado de Cristo, que o apoia na jornada de evangelização e, possivelmente se torna o 13º discípulo, essa mulher é marcada na história como a prostituta. E na balança de nossa moralidade, ainda tão obsoleta, as putas não merecem respeito. Por isso, existem tantos filhos da puta. E o jeito certo de começar uma briga é jogar a mãe (quase virginal) na cama de muitos homens. Então, quase que tradiciona...

Leitura

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Estou quase no fim. A última página se aproxima como uma tragédia anunciada que logo invém. Quando terminá-la perderei a humanidade que sou na tua presença e essa ausência me dói antes mesmo que se realize. Sou uma pessoa que ama prefácios e páginas surpresas de livros que nunca termino. Tenho sido escrava de meus prazeres, sigo até o lugar onde o amor alcança o ápice e lá permaneço, sobrevoando minha felicidade sem ponto final, nem reticências. Quando terminar, serei mais órfã que antes de o ter lido porque saberei o gosto amargo ou doce de tuas palavras (antes desconhecidas). E ninguém sente saudades do que nunca teve. Na caixa do nada, nada falta, porque nada existe, ou exige. O nada confortavelmente nos abraça, como a ignorância fofa dos bebês na infância.   Quando terminar, não seremos mais inocentes. Outra coisa advém, o eu que antecipa o fim de cada página, o eu do livro fechado e solitário na estante. E tudo que sou agora, sou pela relação que ainda o temos. Cada ca...

A barata e eu

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  Quanto mais perto da metade de toda a vida, mais longe de todas as certezas que, sem muitos porquês, fui deixando pelo caminho. Tentando ocupar o vazio indizível de mim fui, ao longo da vida, me preenchendo de tantos outros que mais tarde se tornaram ecos. De mim? Caminhamos sobre nossos pais para não pisarmos uns nos outros? Mentira. No momento em que nos tornamos pó nos dissipamos sozinhos.   Ontem à noite percebi que não tenho mais medo de barata! Deitada em minha cama sinto o som do voo rasante sobre meus ouvidos. Atraída pelo abajur, logo acima da minha cabeça, ela veio. A luz e ela, como qualquer outro inseto, comumente atraída pela lâmpada branca que irrompe a escuridão da casa inteira.   Ela em si mesma era esverdeada. Foi então que me dei conta que não era a barata que me agoniava, mas toda a sujeira que em mim ela sempre representou. Mas o corpo mutante pede outro conceito e me fez pensar na barata do mato cercada apenas de folhas verdes e terra, exatamente as...