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Partida e chegada

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O tempo de partida é o tempo de chegada Em cada perda um ganho Pois o vento que derruba a casa, varre o chão para nova estrutura... Nascemos dotados de movimento, para tanto mudamos, ainda que visualmente parados, trocamos de ideia, de ar, de emoção A mudança está na natureza, humana? Em tudo, até a morte se transforma em rico esterco onde nasce o infinito. Érica Alcântara

Flor de tempo

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Horas falidas Caíram no vão da vida O ar me entorpece As pessoas me trazem cansaço A palavra perdeu-se Solitária Consumiu o verbo e pecou com imagens...

Hiatos

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Que todos os hiatos do tempo sejam rompidos,  porque o amor supera tudo,  perdoa tudo  e transforma o que parecia apenas chuva  - num alimento para a terra  - na união entre céu e solo!

Histórias de Elo - O Beijo

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Meu primeiro beijo foi com um padre. Eu devia ter uns nove ou dez anos, e como morávamos perto da matriz, minha mãe fazia questão de nos levar a missa todos os sábados ou domingos. Embora eu achasse o ritual maçante, a teatralidade das igrejas barrocas provoca o imaginário das crianças, então eu passava uma hora cerrando os olhos para ver se os anjos se mexiam, se as imagens do teto ou das paredes piscavam ou se o padre cairia enroscado em sua própria saia. Um pároco diferente, pelo menos uma vez por mês, ia até a matriz rezar a missa das crianças, chamavam-no de Frei Letro. Dono de oratória rebuscada, ele floreava as palavras e nos dava acesso à oração, como quem estendesse as mãos e fizesse o elo entre Deus e os pequenos. Ao final de cada cerimônia, Frei Letro reunia as crianças na sala atrás do altar e distribuía doces, lembrancinhas e beijos em todas as crianças que o cercavam. Um dia ele me convidou para ir até a casa paroquial; como a vida toda fui alucinada por doce...

Primeira Comunhão

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Na década de 1980 duas irmãs entraram na igreja, terço cor de pérola, velas com adesivo de flor, roupas de linha que na mais nova pinicam o corpo. O Pároco tinha sobrenome de Jardim, fez um discurso em primavera, falou da fé como transformação do mundo. Disse que após o batismo é na comunhão que a criança renova a fé, depois viria a crisma entre outros. As velas acesas, as crianças em pé. E o Padre continua: criança é esperança do mundo e a renovação da igreja. Ainda estavam de pé, as velas acesas choravam lágrimas de cera, algumas com cheiro de mel. A irmã mais velha está com sono, talvez cansada de tanto esperar o rito. Foram dois anos de curso, aos fins de semana ocupada com o catequismo. Sempre foi quieta, uma boa menina. A irmã mais nova se coça, enquanto aprecia a flor branca que colocou na sapatilha. A flor é enorme, feita de tecido dobrado, cobre toda ponta dos dedos. Seu tempo de catequismo foi muito menor, metade, dizem que foi dispensada depois de um an...

Pele

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Amo, silenciosamente, a tua pele A tentação de arrancar do peito meu grito mudo De devorar-te até restar: suor e suspiros

Democracia

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Todo ano podia ser ano de eleição. De repente, como um passe de mágica multiplica-se pelos municípios um monte de gente que tem a receita da felicidade e a solução de todos os problemas. Contando que o povo tenha memória curta, em ano de eleição as estradas, antes abandonadas, começam a virar tapete, as crianças passam a merecer diversão e os buracos das ruas que beiravam o absurdo começam a ser fechados. Como mágica, de repente os recursos antes escassos surgem para investimentos necessários por três anos, mas que sempre eram ditos inexistentes. Todo ano podia ser ano de eleição, quem nunca foi a sessão de câmara vira produtor de projetos, uma máquina de resolução de conflitos que, em sua maioria sequer sabe que suas propostas são ou imorais, ou ilegais. Ironias à parte, esta semana um amigo filósofo, Thiago Bittencourt, publicou um texto que achei maravilhoso e condizente com minha ideia de democracia, diz ele: “Curiosidade sobre uma época mais altiva da humanidade: na ...