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Primeira Comunhão

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Na década de 1980 duas irmãs entraram na igreja, terço cor de pérola, velas com adesivo de flor, roupas de linha que na mais nova pinicam o corpo. O Pároco tinha sobrenome de Jardim, fez um discurso em primavera, falou da fé como transformação do mundo. Disse que após o batismo é na comunhão que a criança renova a fé, depois viria a crisma entre outros. As velas acesas, as crianças em pé. E o Padre continua: criança é esperança do mundo e a renovação da igreja. Ainda estavam de pé, as velas acesas choravam lágrimas de cera, algumas com cheiro de mel. A irmã mais velha está com sono, talvez cansada de tanto esperar o rito. Foram dois anos de curso, aos fins de semana ocupada com o catequismo. Sempre foi quieta, uma boa menina. A irmã mais nova se coça, enquanto aprecia a flor branca que colocou na sapatilha. A flor é enorme, feita de tecido dobrado, cobre toda ponta dos dedos. Seu tempo de catequismo foi muito menor, metade, dizem que foi dispensada depois de um an...

Pele

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Amo, silenciosamente, a tua pele A tentação de arrancar do peito meu grito mudo De devorar-te até restar: suor e suspiros

Democracia

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Todo ano podia ser ano de eleição. De repente, como um passe de mágica multiplica-se pelos municípios um monte de gente que tem a receita da felicidade e a solução de todos os problemas. Contando que o povo tenha memória curta, em ano de eleição as estradas, antes abandonadas, começam a virar tapete, as crianças passam a merecer diversão e os buracos das ruas que beiravam o absurdo começam a ser fechados. Como mágica, de repente os recursos antes escassos surgem para investimentos necessários por três anos, mas que sempre eram ditos inexistentes. Todo ano podia ser ano de eleição, quem nunca foi a sessão de câmara vira produtor de projetos, uma máquina de resolução de conflitos que, em sua maioria sequer sabe que suas propostas são ou imorais, ou ilegais. Ironias à parte, esta semana um amigo filósofo, Thiago Bittencourt, publicou um texto que achei maravilhoso e condizente com minha ideia de democracia, diz ele: “Curiosidade sobre uma época mais altiva da humanidade: na ...

Passado

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Já passou A hora do adeus que nunca foi dito Passou. Os tempos são outros e a vida já não é mais a mesma. Passou. Fomos o melhor que pudemos ser e ainda há chance de ser mais, além... Passou. A terceira pessoa do plural é campo passado, minado, finito. Passou. O tempo do amor infinito foi como chama que tudo consome Assopra antiga ferida, fuuu Passou.

Ponta de areia

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Então, quando a saudade aperta, o coração dispara... Escuto a canção, a estrada de ferro que me liga as minhas raízes Que me enlaça em minha infância No cheiro de Minas No gosto das Gerais, E então, então eu me torno grão de areia E percorro a melodia qual vento que me assopra lembranças...

Vento

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Meus olhos sempre procuram o horizonte,  de minha infância até as últimas horas ... já fui gato, peixe e hoje sou mais vento. gosto de lamber a serra e pentear as árvores com meu movimento a espalhar sementes e colorir até as árvores que não são em si mesmas frutíferas

Almoço de sábado

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Ele chega tardiamente na mesa do almoço, vira para a mulher e diz - Sai pra lá que eu quero falar com o Jorge. Ela se levanta, senta pra lá. Ele quer dominar a conversa, tem o espírito do macho alfa. Manda onde os filhos sentam, como devem comer... Corta a carne com os braços levantados em forma de asas abertas. A mulher parece sozinha, perdida no silêncio de cada garfada...