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Mostrando postagens com o rótulo Jornalismo Literário

Petisbom

- Não acredito!! Levanta Fran, surpresa ao reencontrar o primo. Moram a uma quadra de distância, mas não se viam há um ano. Se cumprimentam e se abraçam, do mesmo jeito que no interior em que o mundo sempre parece pequeno e rever rostos fraternos é tão comum como o frio nas noites de inverno. Ele veste avental e segue direto para a chapa, onde borbulha nas cumbucas a feijoada do dia servida no Petisbom, localizada no coração do bairro Bela Vista, na capital paulista. Chegamos ao local por indicação do porteiro do prédio onde estudamos jornalismo literário. Ao ser questionado sobre onde encontraríamos comida boa e barata, sugeriu o bar e lanchonete à frente do posto. Indicou com timidez clara, deixando um ritmo desconcertante na voz com molejo nordestino. “Expérimenta, se não gostá, num comi”, resumiu. De fato, é outro universo. De uma esquina para a outra, mais parece que voltamos no tempo. Ao lado da porta, o bicheiro recebe apostadores, é apertado e barulhento. Há quatro ...

No Olhar de Olga

“É fácil viver a vida dos homens comuns. Difícil, minha filha, é viver no submundo”, diz a moradora de rua Olga, enquanto é despejada de uma casa que ocupou por um tempo com outros quatro sem teto. Enquanto recolhe o shampoo do banheiro ela, que já foi professora de português e línguas, olha para as policiais femininas e questiona: “Como é ser guarda? Anjo da guarda? Vocês também guardam por mim?”. Recolhe o cobertor delicadamente dobrado sobre a cama de papelão, a cama fria não é tão gelada quanto o olhar atento dos donos do imóvel, que antes da ocupação vivia abandonado. Seu companheiro de rua recolhe a cebolinha que plantou num vasinho preto na janela. Olga tem vontade de chorar, mas não pode. “Na rua a gente é forte porque não tem opção de ser fraco”. As policiais estão paralisadas, cada uma na porta de um cômodo, Olga olha para elas e com perfeita afinação canta: Os anjos de onde vem sua vida bem-vinda ... os livros não são sinceros Quem tem Deus como império No mundo...

Batizado e a superação do medo

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Nos encontramos no batizado. Eu de branco, Genésia de branco sentamos lado a lado. - Você foi batizada aqui?, perguntei. - Batizada, crismada, também casei e batizei meus filhos aqui. Março de 2019, muitas coisas mudaram. - Para mim parece estranho, batizado comunitário. Na minha terra era um batizado por vez. E a família se reunia em volta da pia batismal e, se não me engano, há uma espécie de rito de passagem entre os pais e os padrinhos, que representam a ligação entre os protetores originais e os que, na falta dos pais, devem cuidar das crianças. - A minha vida inteira está ligada a Santa Isabel, fui registrada como isabelense, mas não nasci aqui por um acidente de percurso. - Como assim? - Quando nasci, meu pai estava resolvendo algumas coisas, uma desapropriação do terreno dele em São José dos Campos, naquela época, não tinha essa coisa de ir e voltar no mesmo dia com toda facilidade e conforto. Ele ia ficar uma noite e como minha mãe estava com os pés muito incha...

Resistência

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É hora de nos encontrar, resistir. É hora de compartilhar ternura, que tempos duros virão E nós precisamos de mais flores pelo caminho. Vamos nos encontrar, pq somos da arte, da filosofia, do jornalismo livre, do feminismo, da liberdade de gênero... Sejamos resistência, resiliência Sejamos nós... Érica Alcântara 29/10/2018 #historiasdocotidiano #historiasqueinspiram #ericaalcantara #reflexaododia #refletindo #pensamentos

Isabelense é inocentado após 17 meses de prisão

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“A esperança de voltar para minha família me manteve vivo”, disse David João Nunes Inácio por Érica Alcântara David João Nunes Inácio fez questão de começar a sua entrevista na quarta-feira, 23/10, dizendo: “Eu sou isabelense, nasci aqui, trabalhava aqui e não quero deixar esta cidade”. Em abril de 2018 ele foi preso, acusado de participar de um crime que, em dezembro de 2015, ceifou a vida da professora Maria Helena de Oliveira Godoi, assassinada na cidade de Redenção/Pará. Após 541 dias preso, o Juiz de Direito do Pará, em auxílio à Vara Criminal de Redenção, Dr. José Torquato Araújo de Alencar absolveu David de todas as acusações em face da falta de provas. “Não guardo revolta, só a vontade de voltar para minha vida”, diz. O Processo No dia 24/04/2018, David foi preso quando saía do trabalho na Secretaria de Serviços Municipais. Ele ficou preso alguns meses em São Paulo, depois foi transferido para o Pará onde ficou sete meses sem ver a esposa, Luciene Cristina...

Romaria – a fé de transpor desafios

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De 01/10 até ontem pela manhã, 11/10, 6.646 romeiros passaram pela via Dutra. O Rancho da Pamonha recebeu o grupo “Somos de Imaculada”, que ofereceram apoio e alimentos aos romeiros Por Érica Alcântara Cerca de duas mil pessoas passaram por Santa Isabel rumo a Aparecida pela Rodovia Presidente Dutra, essa contagem é da Vera Lucia Mendonça Santos, proprietária do Rancho da Pamonha, onde um grupo de fiéis montou um ponto de apoio, com direito a capela, missa e bênçãos de párocos também em romaria. Em uma hora no local a reportagem ouviu uma centena de relatos dos pequenos e grandes milagres do dia a dia. Alguns provocam arrepios e a impressão de que a solidariedade voluntária é capaz de mover e renovar a força nas pernas, tanto quanto, ou mais, que os limites da idade ou das condições físicas. Gordo ou magro, alto ou baixo, pré-adolescentes, jovens, adultos e idosos, qualquer pessoa que se disponha a olhar com atenção viu gerações inteiras circulando por uma est...

Uma gota de afeto

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Fui doar sangue com esse povo do bem. Era pro Nicolas, mas ele partiu deixando lições de vida. Falamos dele em todo percurso, meditamos o quanto este menino de 3 anos inspirou tanta gente a ser melhor, a agir para um bem que alcance aqueles que precisam. Sentaram perto de mim a Cássia e a Patty. A Cássia contou do filho que tem sopro no coração. O menor de sua sala na creche, mas que é prova de seu pequeno milagre, nasceu cego e encontrou a luz meses mais tarde. "A primeira vez que ele me enxergou, lembro que passamos o dia andando de um lado para o outro adorando perceber que ele nos acompanhava com os olhos. Antes disso ele chorava o tempo todo, mas depois que ele me viu, sorriu de felicidade sincera, parou de chorar o tempo inteiro", lembrou. Patty conta da Raíssa. 9 meses de gestação perfeita, exames de rotina, ultrassom em leitos particulares. Mas o coração era frágil ❤️, como do Nicolas.  A primeira filha de Patrícia morreu 18h depois de seu nascimento. Mas Patty a de...

Aprender a comer aos 40

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Quarta-feira, dia 08/08/2018, às 8h, fui a uma nutricionista. Não foi fácil chegar até lá, no caminho a gente passa por anos de aconselhamento leigo, pois sempre tem alguém com uma receita infalível para você vencer a balança e ser mais saudável. Além disso, a rotina deliciosa de doces e guloseimas é muito reconfortante. Entre caminhar 4km e comer um pote de Nutela, aaaa adivinha qual escolhi a vida toda? O caminho mais fácil, também pode ser o mais pesado. Quando um doce não preenche o vazio, a noite chega e a gente quer mais, começa a sonhar com uma caixa de bombons e/ou qualquer receita maluca que transforme os ingredientes da dispensa numa sobremesa. Quando cheguei no consultório de Karen Corsini, a secretária Nayane é quem me recebeu. Simpatia e gentileza a definem bem. Mas internamente um sentimento de deslocamento e estranheza me geraram um certo desconforto, uma espécie de dúvida interna gritava: Não é possível que você não saiba comer! A verdade é que não sei mesmo. ...

Um passo de cada vez

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André, eu, Kátia e filha, Ana Caminhei 3,9km esta noite. Eu que vivo na escrivaninha entre uma reportagem e uma poesia. Fui. Horário marcado: 19h30. Saí do trabalho mais cedo! Workaholic saindo mais cedo? Não. Não dá, num vô. Me convenci: escreva uma história, seja parte dela, e a cada três meses conte como caminhar transforma uma vida. Certo! Larguei o computador. Fui em casa procurar malha e um tênis, aquele esquecido no fundo da sapateira. No auge dos 80 a malha não combina, o casaco pouco se ajusta e a cabeça começa a pensar: Está frio hoje, muito frio pra caminhar. André e Ana dão o suporte: "está frio, mas não choveu. Vem!". Passei no mercado, peguei uma fruta e lavei, logo depois da mulher de anel manchado de listras brancas e avermelhadas que sorrindo me disse: "olha a sujeira que a gente acumula no caminho", mostrou as mãos sob a água escorrendo uma espécie de lama das macaxeiras. Sorrio enquanto esfrego minhas uvas na água corrente e penso...

Abandonado na UPA

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Desde dezembro do ano passado, a Unidade de Pronto Atendimento de Santa Isabel é lar de um homem que ninguém da família voltou para buscar  Faltam 32 dias para Reinaldo Oliveira da Silva completar 40 anos. Na manhã de quinta-feira, 03/05, dia em que completou três meses, oito dias e algumas horas instalado na Unidade de Pronto Atendimento – UPA de Santa Isabel ele confessou: “Eu sei que estou pagando pelo que fiz, ninguém veio me buscar, nem me visitam”, pausou a fala num discurso embargado por lágrimas, uma espécie de choro engasgado pelo abandono, “mas queria uma chance de voltar para minha família e recomeçar uma vida”. Reinaldo deu entrada na UPA no dia 25/01/2018, conduzido pelo SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Estava sem acompanhante e no mesmo dia recebeu alta para voltar para casa, mas ninguém apareceu para buscá-lo. Seu histórico conta que sofreu dois AVCs – Acidente Vascular Cerebral. Desde dezembro de 2017 vive entre a internação na Santa Casa e a...